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Reproduzo na sequência a abertura da entrevista que André Baniwa deu para o Planeta Sustentável.

André Fernando, Indígena da etnia Baniwa, vice-Prefeito de São Gabriel da Cachoeira, AM
André Baniwa é índio, militante e vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ele é um exemplo de que os limites culturais entre os indígenas e a sociedade ocidental têm se transformado e defende que só a educação é capaz de garantir a qualidade de vida das futuras gerações indígenas. Enquanto acesso a tecnologia e a universidades fazem parte da vida de alguns povos, outros enfrentam altas taxas de mortalidade infantil e sequer sabem o que é uma crise econômica. Afinal: o que é ser índio hoje?
Indígena da tribo Tucumã Rupitá, nascido em 1971, no Alto Rio Içana, afluente do Rio Negro, André Baniwa só frequentou a escola porque seu pai não queria que suas crianças passassem pela mesma dificuldade que ele teve de entender o que estava acontecendo no mundo, porque coisas erradas aconteciam, com que intenção os homens brancos entravam em contato com os índios e os motivos que levavam o governo a tomar suas tantas decisões.
Anos mais tarde, quando os filhos começaram a sair da aldeia para continuar os estudos – André foi para Manaus cursar uma escola agrícola em regime de internato –, a saudade do pai acabou fazendo com que ele se arrependesse da escolha que fez, pois seu desejo era de que todos permanecessem na comunidade e contribuíssem ali.
Quando não teve mais recursos financeiros para continuar seus estudos na capital amazonense, André voltou para junto de seu povo – hoje, são cerca de seis mil indígenas Baniwa espalhadas por 80 aldeias – e, pelo fato de ter escolaridade superior à da maioria dos que haviam permanecido lá, inclusive alienados sobre seus direitos, acabou participando da OIBI – Organização Indígena da Bacia do Içana e entrando para o movimento indígena. Naquele momento, a discussão dos índios com a FUNAI – Fundação Nacional do Índio girava em torno da demarcação de terras.
Baniwa já foi presidente da associação local, lutou por saúde, educação e geração de renda para seu povo – fortemente submetido à exploração de patrões brasileiros e colombianos – e desenvolveu um modelo educacional e pedagógico para os povos Baniwa e Kuripaco, que chegou a ser objeto de estudo de universitários da Noruega. Para ele, a educação é a chave para melhorar a qualidade de vida dos índios. Ele também foi Conselheiro Municipal de Saúde, é membro da diretoria da FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e, em 2008, se tornou vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira (AM), pelo Partido Verde.
Há quase oito anos, a arte dos índios Baniwa chegou a empresas de São Paulo como Tok Stok, Pão de Açúcar e Natura e a Universidade Federal do Amazonas abraçou um dos projetos da aldeia que valoriza a medicina tradicional indígena. Enquanto a universidade os orientava sobre políticas públicas e sistema de saúde, eles ensinavam o poder curativo das plantas.
Em homenagem ao Dia do Índio, Andre Baniwa conversou com o Planeta Sustentável e nos fez refletir sobre os novos limites culturais e de informação entre os indígenas e a sociedade moderna ocidental. Ao mesmo tempo em que muitos têm acesso a universidades e tecnologias, a mortalidade infantil entre eles está bem acima da média nacional. Se, por um lado, eles têm consciência de que as mudanças climáticas são uma realidade, a metade deles sequer sabe que o mundo passa por uma forte crise econômica. A diferença entre os povos indígenas compõe o cenário de diversidade – e de desigualdade – presente em todo o território nacional e nos leva a questionar: afinal, o que é ser índio hoje?